Relato de um Olho
Por George Neri
O projeto “Janela de Cinema Itinerante” desembocou, no fim de agosto, em Ipiaú. Cidade singular, no que diz respeito aos seus atributos históricos, que geraram grandes contradições em seus aspectos socioeconômicos. Recordo de ter visto, em uma edição do “Festival Nacional de 5 minutos”, um vídeo chamado “Veras” (http://www.youtube.com/watch?v=CXNlN6c9T8w), realizado pelo colega Edson Bastos. Esse vídeo-documentário tem em primeiro plano a história do morador de Ipiaú, Divaldo Angelin Veras. No plano de fundo do vídeo, surge o que pude presenciar na minha parca estadia. Uma cidade pós- guerra, com arquiteturas urbanas “improváveis”, quiçá surrealistas.
Surge em mim um interesse logo na entrada do colégio onde íamos realizar as oficinas. Uma frase de um coletivo dizia “Cultura ou Barbárie”. Imaginei então que poderia incitar e descobrir, com os participantes da Oficina de Produção Audiovisual, algum afeto capaz de ser transmitido e transformado em expressão. No decorrer da oficina, percebi também que os vídeos referenciais que coloco antes de sair para prática, os que eram mais bem recebidos eram os vídeos que tinham uma natureza mais ofensiva. Sem querer interpretar o porquê disso, segui em frente entusiasmado, pois foi a primeira oficina que percebi que os participantes tinham realmente algo a falar. Nas outras cidades os temas eram sugestionados e mais fortuitos.
Tenho para mim que os vídeos bem feitos são aqueles que são levados por sentimentos extraordinários. No caso dos meninos de Ipiaú, percebi um grande companheirismo entre eles, sendo o abraço e as brincadeiras verbais frequentemente utilizadas. Como os vídeos são realizados coletivamente, isso foi muito favorável para o desenrolar. Percebi também que eles não tinham muita intimidade com o computador, sendo que tive que interferir várias vezes no processo de edição. Contudo, eu era ali apenas o editor, eles eram os (((monta.dores))) das suas urgências.
Conseguimos realizar dois vídeos. Tivemos nomes para as equipes, que disputavam saudavelmente um melhor desempenho. Os grupos se chamavam “Os piratas” e “As panteras”. “As Panteras” tiveram maior dificuldade na edição por conta da quantidade da material capturado. Normalmente, capturamos 15 minutos para fazer um vídeo de aproximadamente 5 minutos. Contudo, o processo de filmagem é bastante instigante, e um dos nossos monitores, não teve “pulso forte” para delimitar e ser rigoroso com os 15 minutos. Imagino que ele também tenha se afetado, como os participantes. Na hora da edição, os meninos se perderam com tanto material e tive que interferir para conseguir finalizar e exibir o vídeo. O processo de edição exige bastante perícia e agilidade, pois a técnica confunde e trava quando não temos essa noção. Salvo a ansiedade com o tempo, os vídeos foram mostrados a tempo para todos os participantes das três oficinas realizadas pelo Janela Indiscreta. Seguimos para Conquista levando a virtualidade de um afeto de dois dias.
Relato de um corpo
Por Eleni Kouklanakis
refino o faro extremo:
sutil o bruto fruto aspirado
- do que não extingue.
Adolescendo na presença do calor sufocante, braços estirados – esticados –, na tentativa de alcançar. Um campo, uma vida, uma cidade. Que abisma encostada na história ora rica, ora pobre. Rica: efervescem estímulos, inventa-se caminhos. Dignos. A imagem, a auto-imagem, que atinge, resvala, o tempo impreciso de dobras humanas hereditárias. Atingem a minha imagem. Experimento no outro a semente plantada. A esperança renovada, em mim. Espero espelho, duvido. Espero espelho, com moldura outra; arte-nova, de calor “derretente”. Arte quente, desvelada e querente de pequenos grandes Ipiauenses.