Fotografia na terra de Ferrari
Por Rogério Luiz Oliveira
Não conheço o continente africano, mas aquele lugar me foi revelado pelas lentes do francês Pierre Verger. Também me faltou a oportunidade de visitar Serra Pelada, no Pará, que só vi pelos olhos do fotógrafo Sebastião Salgado. Nunca visitei o povo curdo, na Turquia, e saber como eles são só foi possível por causa de Rogério Ferrari, um fotógrafo de Ipiaú, que produziu um livro com fotografias do cotidiano desse povo. De todos estes fotógrafos que citei, foi o único que conheci pessoalmente.
Nunca tinha ido à cidade de Rogério e me falha a memória quando tento me lembrar se já vi alguma fotografia de lá. Pude conhecer Ipiaú. Mais: a fotografia me levou a conhecer Ipiaú. Não vi fotografias da cidade, mas fui àquele lugar em nome da fotografia, para ministrar uma oficina para crianças do ensino fundamental.
Não conhecia nada da cidade. Não tinha uma referência quanto aos costumes, maneiras, formas e jeitos do povo da cidade. E quando associo isso à fotografia, penso que nenhuma fotografia traduziria tudo o que se vivencia pessoalmente num determinado episódio. Tudo isso por entender que a capacidade de congelar um instante, que torna mágico o fazer fotográfico é, justamente, o calcanhar de Aquiles da fotografia. É o ponto fraco, é a zona vulnerável, sem jamais tirar o brilho da arte de recortar ou de sugerir elementos para a imaginação de quem lê a imagem fotográfica. Muito, mas muito mais que ajudar a reconstruir, me fica claro que a fotografia ajuda a criar o passado.
Por causa disso, tenho para mim, nenhuma fotografia me teria permitido saber de histórias que são ouvidas em Ipiaú. Seu passado histórico, seu contexto social, os projetos dos homens de mentes brilhantes que ali sempre habitaram. Soube, minutos antes de deixar a cidade, que Rogério Ferrari, por exemplo, depois de fotografar povos em Chiapas, no México, e na Turquia, agora está lançando um trabalho fotográfico sobre os ciganos.
Vou forçar um pouco a barra: quer dizer então que ter um aluno cigano participando da oficina de fotografia que ministramos não foi tanta coincidência assim?! É o que parece, quando tomo conhecimento de que o projeto de Ferrari é desenvolvido em comunidades ciganas, comuns na região de Ipiaú.
Nunca fotografei ciganos, mas, se vale, posso dizer que vi um pequeno cigano tirar fotografias. Na oficina, o jovem Mailon era um dos mais dedicados. Ele foi o primeiro a tomar a iniciativa de pedir a câmera e registrar algo que chamou a sua atenção. Não contente, era ele quem sugeria enquadramentos, composições e temas para os colegas. Insatisfeito com a limitação de só poder tirar três fotos, ele corria pelas ruas e praças da cidade, como que querendo antecipar o que poderia e deveria ser fotografado pelos outros.
Aos olhos de Mailon e daquelas crianças, Ipiaú era uma cidade ávida por ser revelada a partir das fotografias. Uma dupla de policiais, flores coloridas, um vendedor de redes, micos irreverentes em frente à igreja de São Roque, e luz, muitas luz refletida das mais diversas e variadas formas. O resultado da oficina de vinte intensas horas é a exposição Fotos do Dia, instalada na Secretaria de Educação do Município de Ipiaú e toda produzida por alunos da rede municipal de ensino da cidade. Ali, mais que belas imagens está a vontade de contar histórias, de chamar a atenção para acontecimentos que aos olhos de crianças são coisas fundamentais.
Felizmente, fotografar é bem mais que escolher, recortar, enquadrar e clicar. Não se fotografa apenas com uma câmera, mas com a bagagem de uma trajetória, com os conhecimentos adquiridos, com os desejos de mostrar mundos, com a vontade de conhecer ou com o respeito de pedir permissão para registrar um determinado instante.
Os pequenos fotógrafos de Ipiaú me sugerem que a partir de agora vou poder entrar tranquilo e passear livremente dentro de uma fotografia de Ipiaú. Pode ser que eu nunca saiba quando e como os micos chegaram naquela praça, ou por quem foi construída a Igreja de São Roque. Por outro lado, terei muito o que dizer sobre a cidade apresentada pelos olhos daquelas crianças.